Vida de YouTuber: esforços levam os criadores ao esgotamento físico e mental - K2.
Marketing de conteúdo em vídeo e a personalização da comunicação
Marketing de conteúdo em vídeo: personalização é o caminho para aumentar o alcance e o engajamento
19 de setembro de 2018
estatísticas e insights sobre o consumo de vídeo on-line em 2018
Estatísticas e insights sobre o consumo de vídeo on-line em 2018
3 de outubro de 2018

Vida de YouTuber: esforços levam os criadores ao esgotamento físico e mental

vida de youtuber e esgotamento andam juntos

Você tem ideia do quão exigente e estressante é a vida de YouTuber? Um artigo publicado no site The Verge trouxe para o debate as dificuldades inerentes ao dia a dia dos criadores de conteúdo que se empenham em viver profissionalmente da plataforma de vídeos, assim como o esgotamento físico e mental, resultado cada vez mais corriqueiro entre eles.

Nos últimos anos, o YouTube vem causando um esgotamento físico / emocional epidêmico. Os principais YouTubers vêm se sentindo compelidos a fazer vídeos sem parar, para um público sempre faminto, com medo de que os intervalos entre as produções os façam perder o timing, ou, pior, serem repreendidos pelo algoritmo que decide quais vídeos as pessoas devem ver. Embora a empresa alegue querer aliviar o esgotamento entre os YouTubers, a maior parte de sua “ajuda” veio na forma de dados inúteis.

Em resumo, os criadores – que são a força vital da plataforma – estão sofrendo, e as respostas do YouTube à crise têm sido insuficientes.

Entenda as dificuldades da vida de YouTuber

Ganhar a vida como um YouTuber não é fácil. Os vídeos representam um esforço demorado, sendo que muitos criadores gostam de lidar com todos os aspectos da produção. E como o produto não se resume simplesmente em uma gravação, lançar um vídeo atrativo não é o suficiente.

Os YouTubers precisam criar uma sensação de intimidade crescente, que faz com que os espectadores se sintam seus amigos. Além disso, há o esforço emocional de sempre ter que estar “ligado”. Quando o vídeo é postado, espera-se que os seguidores continuem a se envolver por meio de comentários, redes sociais, transmissões ao vivo e muito mais – tudo isso apenas para ter que iniciar o processo novamente no dia seguinte, e assim por diante.

Além da natureza exaustiva da produção de conteúdo, os YouTubers ficam à mercê de uma plataforma que eles não entendem completamente. Ocasionalmente, os vídeos viralizam, mas, na maioria das vezes, eles são desmonetizados ou não aparecem para os assinantes que querem vê-los – o que significa que um YouTuber pode passar por um processo muito trabalhoso somente para acabar morto na chegada.

Enquanto isso, os YouTubers geralmente sentem que têm pouco espaço para reclamar sobre um sistema que os transformou em micro-celebridades bem recompensadas. Afinal, eles não deveriam se sentir sortudos por terem uma oportunidade pela qual outros matariam para conseguir?

Como o YouTube vê o esgotamento dos criadores?

O YouTube está ciente de que isso é um problema, e que parece crescer mês a mês, à medida em que mais criadores são afetados. No entanto, a empresa vê que grande parte dessa situação se resume a equívocos.

Os criadores de conteúdo sentem que não podem fazer uma pausa porque acreditam que a plataforma favorece envios contínuos, mas o próprio YouTube discorda dessa concepção.

Em um vídeo enviado para o Creator Insider, um canal hospedado pela equipe de tecnologia do YouTube e que fornece uma visão semanal sobre todos os assuntos da plataforma, o gigante dos vídeos tentou esclarecer que a incapacidade de fazer uma pausa é um mito.

“Há vários canais no YouTube que não publicam diariamente, ou até mesmo todas as semanas”, disse um gerente de produto do YouTube que é mencionado apenas como Todd no vídeo. Ele cita o exemplo de Lucas the Spider, que geralmente publica uma vez por mês e recebe 10 milhões de visualizações em vídeos com 30 segundos de duração. Ou seja, vídeos curtos e não enviados com frequência.”

Todd disse que um canal como o de Lucas the Spider prova que não há “nenhum padrão único” que leve ao sucesso no YouTube. Sendo assim, os criadores devem parar de pensar dessa forma.

“Tudo se resume ao conteúdo e como você está engajando o público”, disse Todd. “Alguns formatos funcionam bem se você fizer check-in todos os dias, mas isso certamente não é um requisito. E não temos regras em nosso sistema que digam: “Bem, vamos analisar com que frequência esse canal está postando e dar um impulso nele” ou qualquer coisa do tipo. Publique o que faz sentido para o seu público e não se preocupe com o resto.”

Afinal, é preciso postar toda hora?

Aparentemente, o YouTube pesquisou centenas de canais que fizeram uma pausa de duas semanas e descobriram que a maioria deles alcançou mais visualizações na semana de retorno do que na semana em que saíram. Tudo isso é usado como evidência de que o público continuará a visualizar os vídeos, caso se importem com o criador do conteúdo, e que o YouTube não pune ninguém por fazer uma pausa.

É difícil imaginar o YouTube mentindo sobre isso, mas, ao mesmo tempo, há muitas incógnitas aqui que não abordam realmente a raiz das preocupações do YouTubers.

Um canal que publica apenas uma vez por mês realmente ganha dinheiro com isso? Será que as visualizações mais altas em uma semana de retorno de férias são significativas o suficiente para compensar uma pausa?

O Creator Insider é um pequeno canal que não recebe muitas visualizações, fazendo com que a tentativa do YouTube de corrigir o problema não sejam efetivas o suficiente. Então, por que relegar essas informações importantes a um lugar onde dificilmente alguém as verão?

Isso pode explicar por que Robert Kyncl, do YouTube, deu uma entrevista recentemente para Caspar, um YouTuber com 7,1 milhões de inscritos, sobre o desastre do esgotamento na plataforma (entre outras coisas). No vídeo, Kyncl reitera que o YouTube está ciente do que está acontecendo, e que os funcionários sentem a mesma pressão que os usuários – mas, no fim das contas, os criadores de conteúdo não devem sentir que não podem dar pausas entre uma publicação e outra.

“Nós, como uma empresa, nos concentramos muito nos esgotamento”, disse Kyncl. “Nós gastamos muito tempo com esse tópico. É ótimo quando os criadores de conteúdo falam sobre isso. Se não houver consciência sobre o assunto, ninguém vai se sentir bem para fazer uma pausa ou recarregar as energias. Eu acho que há muitas noções preconcebidas por aí, do tipo “se eu fizer uma pausa, o algoritmo me castiga e eu estou perdido para sempre no YouTube”. Bem, se isso fosse verdade, como um novato poderia crescer rapidamente? Se souber como encontrar seu público – o que encontrou uma vez -, você o encontrará novamente, mesmo que faça uma pausa por um mês, três meses, seis meses.”

O YouTube, enquanto plataforma, não está se esforçando para criar uma cultura que deixe os YouTubers se sentirem seguros o suficiente para fazer uma pausa, ou para criar públicos-alvo que não anseiem por um fluxo constante de conteúdo. Afinal, quando você termina um vídeo, a plataforma inicia automaticamente o carregamento de um novo. O YouTube não pode dizer que se preocupa com o bem-estar de seus criadores, ao mesmo tempo em que considera o consumo como rei. Há uma razão pela qual empresas de tecnologia como a Apple e o Facebook estão dedicando atenção a conceitos como “tempo gasto com qualidade”.

Quando os vídeos dos YouTubers falham, o fato de terem acesso a métricas hiperespecíficas – do tipo quando e onde as pessoas param de assistir – facilita a obsessão por números que praticamente não têm contexto. Os dados servem quase que somente para fazer o YouTube se sentir como um sistema que pode ser gamificado se você souber a combinação certa de fatores. Há uma razão pela qual, em muitas publicações de mídia, os editores não permitem que seus escritores acompanhem a performance de seus artigos: isso faz com que as pessoas se concentrem nas coisas erradas, ao invés de produzir o melhor trabalho possível.

O diretor de conteúdo de jogos e parcerias do YouTube, Ryan Wyatt, questionou em uma entrevista: “Se os criadores de conteúdo ficarem maiores, eles poderão ter editores que os ajudem e, à medida que se expandem, passarão a olhar para si mesmos mais como um negócio do que um colaborador individual?”. Wyatt também aponta para a comunidade do YouTube como uma ferramenta que os criadores podem usar para interagir com os fãs sem precisar fazer upload de novos conteúdos todos os dias.

Mas o problema não são os uploads em si. A questão é que os criadores não conseguem fazer uma pausa, e qualquer envolvimento com o público deles – seja a interação na comunidade da plataforma – só agrava o problema. Wyatt disse que o YouTube está interessado em ser mais transparente sobre coisas como a monetização, para ajudar o público a entender como a plataforma funciona, mas é irritante o fato de que o YouTube pareça ainda estar no campo das ideias com tudo isso.

>>> Saiba mais sobre a monetização e a dificuldade de se obter renda com o YouTube

Vida de YouTuber é vida de freelancer

Embora o YouTube incentive rotineiramente as pessoas a tirarem férias, apenas dizendo às pessoas que elas podem fazer uma pausa sempre que elas não estiverem produzindo, os empregadores tradicionais descobriram que oferecer um tempo vago ilimitado para os colaboradores não funciona da forma desejada. As pessoas não sabem quanto tempo livre podem tirar, ou têm medo de parecer que estão abusando do benefício.

Também vale a pena lembrar que os YouTubers são todos freelancers. Por isso, ao contrário dos trabalhadores tradicionais, eles não têm planos de saúde ou a segurança da folga remunerada. YouTubers literalmente não têm nada e ninguém para ajudar a avaliar sua decisão sobre quando fazer uma pausa.

Mais especificamente, os YouTubers operam sob a mesma economia do Uber, na qual grande parte do custo é desembolsado pelo trabalhador. A diferença, nesse caso, é que o desgaste do trabalho não recai sobre um veículo, mas sim sobre um ser humano real. Se um criador de conteúdo estiver obtendo uma receita decente com o YouTube, o tempo em que ele estiver “fora” afetará diretamente seus resultados.

As pressões combinadas de obrigação financeira e emocional, a falta de clareza institucional e as métricas favoráveis à obsessão pela performance tornam quase impossível para os YouTubers se livrarem do ciclo de produção de conteúdo. As carreiras de streaming e de vlogs no YouTube e no Twitch são novas o suficiente para que ainda não possamos ver o quanto elas realmente são sustentáveis no longo prazo, mas, no momento, as perspectivas parecem sombrias.

Muito disso se resume à saúde mental, e isso é algo que o YouTube está mal equipado para enfrentar. Os locais de trabalho padrão podem oferecer recursos humanos que conduzam as pessoas para terapeutas, conselheiros e psiquiatras e, com sorte, você pode ter chefes que cuidam de você para ter certeza de prover um bom ambiente de trabalho e boas práticas, como mantê-lo offline quando não está realmente programado para trabalhar. Se você trabalha para um lugar particularmente avançado, mas de alto estresse, a empresa pode até mesmo fornecer seu próprio psiquiatra interno.

O equivalente no YouTube parece ser uma série de vídeos no canal Creators, no qual a terapeuta Kati Morton discute o esgotamento. Morton descreve os tipos de sinais a serem observados e dá alguns conselhos sobre como fazer as pausas e estabelecer limites para se recarregar.

É uma boa ideia, mas os vídeos são lançados como 101 incursões em assuntos complexos – e a terapia funciona melhor quando é personalizada. Além disso, se você está no meio da crise de esgotamento, pode levar muito tempo para se livrar dela, à medida em que trabalha com os comportamentos e escolhas específicas que o colocaram nessa situação. Vídeos introdutórios curtos não podem cumprir a função que os criadores realmente precisam para combater o esgotamento – e, se pudessem, esses vídeos são relegados a um canal em que os conteúdos não são vistos por quase ninguém.

Conclusão

Se o YouTube diz que os YouTubers são uma parte importante da marca, então, sem dúvida, a plataforma tem alguma responsabilidade pela saúde e pelo bem-estar de seus maiores embaixadores. Como alguns de seus criadores de conteúdo mais visíveis continuam a esgotarem-se, fica claro quea plataforma não está fazendo o suficiente para combater esse problema.

Exigir que o YouTube resolva essa questão parece ser pedir demais em nosso mundo baseado em performances individuais, onde todos são obrigados a se virarem sozinhos. Mas, em algum momento, as necessidades dos seres humanos precisam vir antes dos lucros das corporações, especialmente se são as próprias pessoas que estão criando o valor para essas marcas.

Parte do que torna o assunto tão espinhoso é o fato de que o YouTube precisa lidar com algo muito maior do que vídeos, mídias sociais ou até mesmo tecnologia. Culturalmente, estamos arraigados com a sensação de que só valemos o tanto quanto trabalhamos e produzimos, e essa realidade atinge os campos criativos particularmente. Quando você vê seus colegas produzindo constantemente, e o ciclo de notícias se move a uma velocidade incrível, todos sentem pressão para fazer mais, e o mais rápido possível – seja você um YouTuber, um artista ou um jornalista.

Liquidar com o problema do esgotamento não é tarefa fácil, e não se pode esperar que o YouTube o resolva em um piscar de olhos. Mas se a empresa já está disposta a fornecer recursos tangíveis para criadores, como estúdios físicos onde os conteúdos possam ser gravados, o YouTube também deve garantir que seus criadores se mantenham saudáveis. Páginas da Web e vídeos curtos não estão dando conta.

Infelizmente, por mais que o YouTube diga que o esgotamento o preocupa, enquanto empresa, ele tem pouco incentivo para resolver o problema – e é por isso que ainda estamos falando sobre esse assunto, ano após ano. Claro, isso tudo gera publicidade ruim, mas, no final do dia, o YouTube não está desesperado por novos talentos. Há sempre outro jovem criador faminto que encontrará uma maneira de atrair milhões de visualizações. Há sempre outra personalidade que ainda não foi engolida pelo sistema. Mas os seres humanos não são descartáveis, e chegou a hora do  YouTube começar a agir de acordo.

 

 

 

Cristian Amaral
Cristian Amaral
Avesso ao formato goela abaixo do outbound marketing. Fisgado pela abordagem mais respeitosa do inbound marketing. Publicitário por formação, redator por gosto. Assim como todo mundo, nadando no tsunami de informações e tecnologias, mas sempre atento ao fato de que, no final das contas, seguimos lidando com pessoas.

Os comentários estão encerrados.